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Além de Mesão Frio |
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| Três vezes tocou o telefone, antes que Catarina o atendesse. Nesse tempo, enquanto olhava pela janela os pássaros a debicar as uvas, passou em frente aos meus olhos toda uma infância a correr por entre o vinhedo, a Catarina atrás de mim com sapatos de menina sempre enlameados, que a faziam tropeçar a cada corrida mais audaciosa. Quando atendeu, a voz dela entrecortou o seu riso de criança na minha memória, e não pude responder senão com uma leve gargalhada, como quem desafia uma criança a levantar-se e vir atrás de nós. – Catarina! – Quem fala? – Sou eu, o António! – António?! Não percebendo se a interrogação era de dúvida ou de espanto, nesse instante achei que a ideia de voltar a contactar uma amiga que não via desde o liceu era completamente disparatada, e nem fui capaz de responder. – António! És tu! Há quanto tempo não te oiço? Nem acredito… Como estás? – Sim, sim; estou em Mesão Frio! O resto da nossa conversa continuou nos mesmos moldes: as perguntas serviam apenas como pontuação, já que nenhum dos dois respondia exactamente ao que era pedido. Mas os dois íamos atirando em breves frases a informação que julgávamos importante: viver aqui com a namorada, eu – Beatriz o nome dela; Catarina casada, dois filhos pequenos; filhas aliás, um apartamento na vila, eu a reocupar a velha casa de família, a procurar sossego depois da grande cidade, café um dia destes, lanche é melhor, este domingo, depois de desfazer as malas, nós vamos aí; levamos alguma coisa? Medronhos da quinta, adeus! Quando desliguei o telefone voltei a ver a Catarina da infância, de joelhos esfolados, com as mãos vermelhas, besuntadas de medronhos maduros e esmagados. |