– A Catarina contou-me que passou a meninice a brincar naquela quinta – continuou Daniel – e que costumava fazer coroas com as agulhas daquele pinheiro manso que se via ao longe, e eu só a conseguia imaginar, pequenina e frágil, muito concentrada no seu trabalho, e depois muito orgulhosa com a sua coroa verde.
E para mim foi demais. Olhei para Catarina, que nem me ligou, de tão concentrada estava no Daniel enquanto ele falava, os olhos cheios de ternura. Como se tudo aquilo fosse verdade! Naquela altura, Catarina mal chegava ao pinheiro tentava logo subi-lo, e passava o tempo todo a tentar concretizar essa tarefa,
como se quisesse domesticar um gigante. Eu ficava cá em baixo, não me ia embora com medo que ela caísse ali sozinha, e entretinha-me a prender as agulhas umas nas outras, a tentar fazer construções. Quando se cansava, Catarina descia e gozava comigo, e, com tiques femininos exagerados, perguntava se eu estava a fazer colares ou coroas, punha as agulhas na cabeça (castanhas, claro, eu usava as que já estavam caídas pelo chão), e dançava e corria com ar de desafio.
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