Além de Mesão Frio
um conto em linha, por Ana Sabino

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Um ano antes da minha chegada, nada estava assim. As cadeiras, os móveis, tudo foi preparado para a nossa chegada como se fosse necessário alterar a cor das paredes para que elas perdessem a memória de outros tempos. Houve o cuidado de aparar as hortenses, eliminar as roseiras mais fracas. Do que eu mais gostava nesta casa era precisamente a sua memória, o cheiro dos cozinhados da empregada que tinha voltado de Angola e que, em pleno Douro vinhateiro, não dispensava a sua muamba. Mas quando decidimos vir morar para a casa de família, os caseiros assumiram que não queríamos a casa da família, queríamos uma casa no campo, e prontamente se tomaram diligências para armazenar tudo o que tinha tornado aquela casa um lar, no passado.